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sexta-feira, 14 de junho de 2013

Por Outras Vozes, Outras Fontes e Outros Ângulos: Um Relato do Ato

Relato de Rafael Lira (Articulador do FALE SP) e demais educadores sobre as manifestações em contra o aumento de preço do transporte público em São Paulo


Manifestantes cercados e atacados pela Força Policial: democracia, ”só que não ”:

São quase duas da manhã e estamos aqui, um grupo de nove jovens amigos/as, reunidos/as, agitados/as e não conseguiremos dormir antes de denunciar o que vivemos hoje pelas ruas do centro de São Paulo.


Era por volta das 18h quando descemos a Rua Augusta em direção ao Theatro Municipal para a concentração do Quarto Ato contra o aumento das tarifas. 
Policial militar atinge cinegrafista com spray de pimenta durante protesto contra o aumento da tarifa do transporte urbano em frente ao Teatro Municipal, no centro de São Paulo, nesta quinta-feira. Fonte: Estadão / Yahoo
As notícias que circularam durante o dia prenunciavam que o a manifestação seria tensa. Mas, apesar do medo, estávamos leves e confiantes na democracia. Fomos nos incorporando a vários outros companheiros que seguiam para o ato. O que portavam? Flores, vinagre e câmeras fotográficas.

Ao chegar ao Theatro, o clima já estava tenso. A forte presença policial contrastava com o desejo de paz da maioria dos manifestantes, evidenciados em falas, gritos pela não violência e em atitudes absolutamente pacíficas.

Seguimos com a multidão, reivindicando a revogação do aumento das tarifas e, mais do que isso, o direito ao transporte público, à cidade e, óbvio, a nos manifestarmos.
Jornalista da TV Folha ferida pela PM de São Paulo (Foto: Estadão)


Nossa intenção era parar a Paulista, chamar a atenção dos governantes e exigir o diálogo, mas quem parou a Paulista foi a polícia. Poucos quilômetros de caminhada e o choque cercou os manifestantes e realizou a primeira dispersão. A partir daí éramos vários atos pela região central da cidade. Seguimos com um grupo que subiu a Rua Augusta para tentar chegar a Paulista. Também fomos cercados, recuamos pela Bela Cintra e também ficamos sem saída.


Fomos encurralados até chegar na Consolação. Vimos um cenário de guerra, vários dos grupos que haviam se dispersado voltaram a se encontrar, mas estávamos cercados pelo choque e pela cavalaria de todos os lados. Todos. Não havia para onde escapar e se proteger. Muitas bombas e balas de borracha atingiam os manifestantes. O desespero começou a tomar conta. Faltava o ar, os olhos ardiam, medo de perder os companheiros e, principalmente, o sentimento de indignação, humilhação e revolta. A solidariedade prevaleceu. Quem tinha vinagre, oferecia, indicavam caminhos livres, davam as mãos.

Conseguimos correr por uma das ruas. Recuamos. Tinha duas adolescentes conosco, estávamos preocupados, cansados. Precisávamos encontrar um local seguro. Seguimos pelas ruas paralelas à Consolação na região de Higienópolis. Estava deserta, nos sentimos a salvo. Encontramos mais um pequeno grupo de amigos numa padaria. Um alivio. Tomávamos uma água.


De repente, onde não havia mais aglomeração de manifestantes, mais fumaça, mais barulho, mais bomba. Começamos a correr. Nos separamos dos outros. Nesse momento, éramos apenas nove amigos. Resolvemos caminhar calmamente, não haveria motivo para sermos atacados. Não fazíamos nada de mais. Estávamos enganados. Uma viatura parou diante de nós. Policiais apontaram a arma e ordenaram: “corram que vamos atirar”. Corremos e eles cumpriram a promessa. Atingiram uma amiga. Nos desesperamos. As ruas estavam desertas, não havia onde entrar. Estávamos sozinhos. Humilhados e indignados pela arbitrariedade, pela violência, pela covardia, gritamos por socorro.

Duas moças passavam de carro, se escandalizaram com a covardia que presenciaram. Pararam o carro e disseram para entrarmos. Nove pessoas num Palio. A solidariedade e o senso de justiça nos salvou. Elas moravam por ali e nos levaram para o apartamento, para ficarmos em segurança até que pudéssemos sair.

Mais amizade, mais solidariedade. Fizemos um pedido de ajuda pelas redes sociais. Precisávamos de dois carros para nos tirar dali em segurança. Poucos minutos e dezenas de ajuda foram oferecidas. Fizemos e recebemos diversos telefonemas para saber dos outros amigos/as espalhados/as, feridos/as, presos/as. Havia uma rede de pessoas trocando informação, solidariedade, força. Fomos acolhidos num local seguro, onde passaremos a noite.

Como nos sentimos agora? Humilhados e indignados, sim. Mas não derrotados. O que vimos hoje nos fez ver o tamanho do desafio que temos para consolidar a democracia e também nos fez sentir que somos fortes, somos muitos e somos bons. Partilhamos de momentos emocionantes de luta, coragem, lucidez. Fomos acolhidos e recebemos imensa solidariedade que alimentaram ainda mais o nosso sentimento de força. Essa rede pode crescer, temos certeza. Não vamos recuar. Enquanto a passagem não baixar, São Paulo vai parar.


Por:

Ingrid Evangelista

Juliana Giron
Paolla Menchetti
Rafael Lira
Vanessa Araújo Correia
Vânia Araújo Correia
Victória Satiro

Vitor Hugo

Por Outras Vozes, Outras Fontes e Outros Ângulos: Um Relato do Ato

Relato de Rafael Lira (Articulador do FALE SP) e demais educadores sobre as manifestações em contra o aumento de preço do transporte público em São Paulo


Manifestantes cercados e atacados pela Força Policial: democracia, ”só que não ”:

São quase duas da manhã e estamos aqui, um grupo de nove jovens amigos/as, reunidos/as, agitados/as e não conseguiremos dormir antes de denunciar o que vivemos hoje pelas ruas do centro de São Paulo.


Era por volta das 18h quando descemos a Rua Augusta em direção ao Theatro Municipal para a concentração do Quarto Ato contra o aumento das tarifas. 
Policial militar atinge cinegrafista com spray de pimenta durante protesto contra o aumento da tarifa do transporte urbano em frente ao Teatro Municipal, no centro de São Paulo, nesta quinta-feira. Fonte: Estadão / Yahoo
As notícias que circularam durante o dia prenunciavam que o a manifestação seria tensa. Mas, apesar do medo, estávamos leves e confiantes na democracia. Fomos nos incorporando a vários outros companheiros que seguiam para o ato. O que portavam? Flores, vinagre e câmeras fotográficas.

Ao chegar ao Theatro, o clima já estava tenso. A forte presença policial contrastava com o desejo de paz da maioria dos manifestantes, evidenciados em falas, gritos pela não violência e em atitudes absolutamente pacíficas.

Seguimos com a multidão, reivindicando a revogação do aumento das tarifas e, mais do que isso, o direito ao transporte público, à cidade e, óbvio, a nos manifestarmos.
Jornalista da TV Folha ferida pela PM de São Paulo (Foto: Estadão)


Nossa intenção era parar a Paulista, chamar a atenção dos governantes e exigir o diálogo, mas quem parou a Paulista foi a polícia. Poucos quilômetros de caminhada e o choque cercou os manifestantes e realizou a primeira dispersão. A partir daí éramos vários atos pela região central da cidade. Seguimos com um grupo que subiu a Rua Augusta para tentar chegar a Paulista. Também fomos cercados, recuamos pela Bela Cintra e também ficamos sem saída.


Fomos encurralados até chegar na Consolação. Vimos um cenário de guerra, vários dos grupos que haviam se dispersado voltaram a se encontrar, mas estávamos cercados pelo choque e pela cavalaria de todos os lados. Todos. Não havia para onde escapar e se proteger. Muitas bombas e balas de borracha atingiam os manifestantes. O desespero começou a tomar conta. Faltava o ar, os olhos ardiam, medo de perder os companheiros e, principalmente, o sentimento de indignação, humilhação e revolta. A solidariedade prevaleceu. Quem tinha vinagre, oferecia, indicavam caminhos livres, davam as mãos.

Conseguimos correr por uma das ruas. Recuamos. Tinha duas adolescentes conosco, estávamos preocupados, cansados. Precisávamos encontrar um local seguro. Seguimos pelas ruas paralelas à Consolação na região de Higienópolis. Estava deserta, nos sentimos a salvo. Encontramos mais um pequeno grupo de amigos numa padaria. Um alivio. Tomávamos uma água.


De repente, onde não havia mais aglomeração de manifestantes, mais fumaça, mais barulho, mais bomba. Começamos a correr. Nos separamos dos outros. Nesse momento, éramos apenas nove amigos. Resolvemos caminhar calmamente, não haveria motivo para sermos atacados. Não fazíamos nada de mais. Estávamos enganados. Uma viatura parou diante de nós. Policiais apontaram a arma e ordenaram: “corram que vamos atirar”. Corremos e eles cumpriram a promessa. Atingiram uma amiga. Nos desesperamos. As ruas estavam desertas, não havia onde entrar. Estávamos sozinhos. Humilhados e indignados pela arbitrariedade, pela violência, pela covardia, gritamos por socorro.

Duas moças passavam de carro, se escandalizaram com a covardia que presenciaram. Pararam o carro e disseram para entrarmos. Nove pessoas num Palio. A solidariedade e o senso de justiça nos salvou. Elas moravam por ali e nos levaram para o apartamento, para ficarmos em segurança até que pudéssemos sair.

Mais amizade, mais solidariedade. Fizemos um pedido de ajuda pelas redes sociais. Precisávamos de dois carros para nos tirar dali em segurança. Poucos minutos e dezenas de ajuda foram oferecidas. Fizemos e recebemos diversos telefonemas para saber dos outros amigos/as espalhados/as, feridos/as, presos/as. Havia uma rede de pessoas trocando informação, solidariedade, força. Fomos acolhidos num local seguro, onde passaremos a noite.

Como nos sentimos agora? Humilhados e indignados, sim. Mas não derrotados. O que vimos hoje nos fez ver o tamanho do desafio que temos para consolidar a democracia e também nos fez sentir que somos fortes, somos muitos e somos bons. Partilhamos de momentos emocionantes de luta, coragem, lucidez. Fomos acolhidos e recebemos imensa solidariedade que alimentaram ainda mais o nosso sentimento de força. Essa rede pode crescer, temos certeza. Não vamos recuar. Enquanto a passagem não baixar, São Paulo vai parar.


Por:

Ingrid Evangelista

Juliana Giron
Paolla Menchetti
Rafael Lira
Vanessa Araújo Correia
Vânia Araújo Correia
Victória Satiro

Vitor Hugo

20 Centavos e o preço das Manifestações

*por Isaac Palma


Foto: Rafael Lira
Invariavelmente, não foram os 20 centavos que nos levaram as ruas de São Paulo, apesar de existirem razões cabíveis para protestar por esses 20 centavos. Definitivamente não são apenas os valores das passagens que tem levado pessoas as ruas, não só em São Paulo, mas em várias cidades do Brasil. Existe algo simbólico em todo levante popular, não significa que o que o Estado fez nunca foi feito, mas que chegou ao nível de ser intolerável, não saímos as ruas por esse último aumento, mas por todos os que tiveram até agora e em um tipo de esperança de que eles não sejam mais uma realidade entre nós, graças a uma indignação constante.

Existe uma distância astronômica, para aqueles que foram as ruas por esses dias pedir pela redução do valor da passagem, entre o valor anterior e esse que o Estado nos presenteou. Se enganam aqueles que acham que esses protestos são sobre transporte publico ou mobilidade urbana, eles passam inevitavelmente por isso, mas não são sobre isso. Existe um tanto de revolta não só com o Estado, mas também com toda a Sociedade, e isso obviamente nos inclui, não estamos ali somente pelo que está posto agora, estamos também por todas as nossas omissões anteriores. Estamos ali porque não aguentamos mais ficar parados dizendo que ninguém faz nada, ou que os políticos são corruptos e nada pode mudar isto.

Entre a Avenida Paulista e a Consolação, nos poucos centímetros que transformam uma em outra, pisei em 2013 como se pisasse em meados das décadas de 80, época em que os sonhos não descansavam, e que sonhar não era só possível como era necessário. Era como se num lapso de tempo pudesse viver aqueles anos que não vivi como ser humano mas inevitavelmente vivi como Brasileiro. Abandonar nossas distopias cotidianas talvez ainda nos leve tempo, trocar por velhas e (por que não?) novas utopias nos custe esforços que não estamos ainda dispostos. Ver aqueles sonhos de uma nação mais justa serem transformados em ensaios tecnocratas de mentiras mal contadas, talvez tenha sido um baque por demais doloroso em nós, e por isso esse silencio sepulcral, talvez por isso nossas omissões anteriores.

Recordo-me que a mesma cena se repete diversas vezes na história, como o estopim de uma coisa aparentemente insignificante pode se transformar num levante que muda os rumos de países, cidades ou bairros. Relembro a história do Cristo indignado, com os exploradores do povo, dos profetas que não quiseram nem puderam se calar com a hipocrisia daqueles que exploravam os oprimidos. Me identifico com esses sonhadores que vislumbraram outro mundo sobre os escombros daquele que estava a sua frente.

Isaac (esquerda) e Rafael  - Falantes marcando presença nas
manifestações. (Foto: Rafael Lira)

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Dica de Leitura: Poluição e a Morte do Homem

Uma abordagem Cristã sobre a degradação da natureza por parte do ser humano. Um livro altamente relevante escrito por uma das mais destacadas mentes da filosofia e do cristianismo do século XX: Francis Schaeffer. 
Editora Cultura Cristã, 96 páginas.
Recomendamos!
Caso queira adquirir Ligue 8828-0295

domingo, 6 de maio de 2012

ENTREVISTA DE MARINA SILVA A NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL


O ideal de vida de Marina

As vésperas da Rio +20, a ex-senadora fala de como pretende promover uma mudança de paradigma em favor de um novo modelo de desenvolvimento econômico

por Afonso Capelas Jr.Fonte: NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL
Cristiano Mariz
Marina Silva, ex-senadora e candidata a presidência
“A sustentabilidade deve ser entendida como um ideal de vida”, diz Marina Silva, ex-senadora e ex-ministra do Meio Ambiente
“Ainda vou decidir se me candidato a algum cargo político neste ano. Mas minha luta ecológica continua”, diz a ex-senadora e ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva logo ao fim da entrevista que concedeu a NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL em uma livraria de Brasília. Antes ela havia participado, durante duas horas, das gravações de um documentário sobre a nova classe média brasileira. Marina está habituada a trabalhar muito; quando adolescente, sua jornada começava de madrugada em uma comunidade do seringal Bagaço, no Acre. Hoje é ainda mais atarefada. Incansável, vive uma maratona de viagens, palestras e entrevistas mundo afora – à noite, ainda sobra fôlego para ler e escrever na cama. A seguir, Marina nos conta como pretende promover uma mudança de paradigma em favor de um novo modelo de desenvolvimento econômico. “A sustentabilidade deve ser entendida como um ideal de vida”, diz ela.
O que a senhora espera da Rio+20?
Aguardo uma avaliação séria do que foi feito nos últimos 20 anos. É óbvio que chegaremos à conclusão de que foi menos que o necessário. Meu desejo é de que venham novos compromissos para que o encontro não seja uma pá de cal na memória da Rio 92. A Rio+20 é um processo dinâmico que envolve centenas de países. Cada um precisa fazer seu dever de casa. No Brasil, está acontecendo um grande retrocesso com a mudança da legislação ambiental para retomada do aumento de áreas de cultivo. É uma contradição. A prova de que o país não precisa disso é que estamos há quase oito anos com crescimento econômico, diminuição da pobreza e do desmatamento. De um modo geral, é preciso não subtrair a questão ambiental desse encontro mundial.
A senhora concorda com o alerta de um grupo de cientistas de que o encontro pode ser desvirtuado por outros temas, deixando a sustentabilidade e as mudanças climáticas em segundo plano?
Sim. Estão fazendo uma assepsia do tema ambiental, da perda de biodiversidade, do aumento da desertificação e das mudanças no clima para discutir apenas desenvolvimento. Na conferência climática de Durban, chegamos à conclusão de que o planeta está na UTI, mas a intervenção médica só vai acontecer daqui a dez anos. Iremos para a Rio+20 sabendo que estamos vivendo uma crise civilizatória caracterizada por múltiplas crises, e já estão querendo praticar a política do avestruz: fazer vista grossa aos problemas ambientais para falar apenas de desenvolvimento e pobreza, como se os dois temas não tivessem como pano de fundo a crise ambiental global. Embora as outras questões sejam relevantes, elas não têm como ser resolvidas pelos mesmos paradigmas dos séculos 19 e 20. É fundamental o protagonismo do Brasil no encontro, descolando-se das posições atrasadas do G77 (grupo de países em desenvolvimento) e abrindo maior liderança dentro do G20 (nações desenvolvidas e emergentes), porque esse grupo representa 80% do PIB da população mundial e das emissões de gases de efeito estufa. Se o G20 se movimentar para a redução das emissões e a mudança do modelo de desenvolvimento, será possível fazer a diferença. Inclusive, alavancar recursos para que as nações pobres se desenvolvam sem repetir o exemplo predatório dos países ricos.
Quais contribuições a senhora levará ao encontro no Rio?
Estarei lá como um dos “advogados do milênio”. O Millennium Development Goals (MDG) Advocacy Group é uma organização que trabalha com o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, para fazer articulação política em benefício dos países pobres e vulneráveis. Para a Rio+20, sugeri uma autoconvocação dos líderes morais do planeta, aqueles que, nos mais diferentes espaços da vida econômica, social, científica e política, estão envolvidos com a causa, não sob a perspectiva imediatista, que nos torna reféns dos interesses das corporações ou da conjuntura política. A ideia é de que, antes da chegada dos chefes de Estado ao encontro, os líderes morais apresentem os pontos necessários para enfrentar o problema. Assim, criamos um espaço de mobilização independente, em que a sociedade possa ouvir da boca dos cientistas qual o tamanho do desafio que temos pela frente.
O que a senhora acha que mudou no Brasil quanto às questões socioambientais desde a Rio 92? Avançamos nesse quesito?
Evoluiu a consciência das pessoas. Basta considerar que mais de 20 anos atrás Chico Mendes foi assassinado e apenas meia dúzia de pessoas estavam envolvidas com a causa da Amazônia. Hoje há toda a polêmica em torno do Código Florestal e pesquisas de opinião mostram que 80% dos brasileiros preferem pagar mais pelos alimentos para proteger a floresta. Creio que são os maiores indicadores de que a consciência é outra. Isso ainda não se traduz em mudança de atitude, mas há muitos passos nessa direção. Nas duas décadas passadas, evoluiu também a base legal para a proteção de nossos ativos ambientais. Temos agora uma lei de crimes contra a natureza, o mapa dos biomas brasileiros e das zonas prioritárias para conservação da biodiversidade, uma lei nacional das águas e um sistema nacional de unidades de conservação, com 70 milhões de hectares de áreas preservadas. Orgulho-me de saber que, desse total, 24 milhões de hectares foram criados durante a minha gestão como ministra do Meio Ambiente, de 2003 a 2008. Se não houvesse essa evolução de consciência, sequer teria sido possível implementar o Plano de Combate ao Desmatamento, que levou à redução de 80% da derrubada da floresta graças à inibição de 1,5 mil propriedades ilegais e à aplicação de 4 bilhões de reais em multas.
Tal consciência despontou nos políticos ou nos cidadãos?
Sobretudo nos cidadãos. Apesar disso existe um retrocesso, em que a maioria dos políticos quer alterar o Código Florestal e a legislação de criação de terras indígenas no Brasil. Também removeram as competências do Ibama para fiscalizar o desmatamento e no primeiro ano da presidente Dilma nenhum hectare de unidade de conservação sequer foi criado. Vejo, então, um paradoxo: enquanto aumenta a consciência ambiental das pessoas, notamos um recuo da representação política, pautada por grupos – ainda que minoritários – mais conservadores, na questão socioambiental. É um fenômeno que acontece no mundo inteiro. Há um lobby pesado contra qualquer medida nos Estados Unidos em relação à Convenção do Clima. Mas em boa parte da sociedade mundial cresceu a consciência socioambiental.